INTRUSO NA FESTA



O Zé, o porteiro que virou meu amigo, tem um jeito peculiar de expressar sua amizade. 

Ele é seco, sintético, não é de falar muito - vai logo ao ponto:

- O senhor viu só a confusão que deu no aniversário da menina do 43, a Celinha? Foi um vexame só...

E contou a história.

A festa foi no salão do prédio. Ele é como o condomínio: um pouco decadente. Mas quebra um galho.

Pois bem, seu Oliveira convidou os parentes e alguns amigos para comemorar os 12 anos da Celinha. Em vez de almoço, fizeram um jantar, vá lá saber por quê. Dona Maria, a mulher do Oliveira, caprichou, a parentada veio em peso, as mesinhas de plástico receberam toalha de pano e flores de plástico. Tudo nos trinques. Até que...

- Foi a irmã da dona Maria que viu o bicho subindo na parede, ao lado da pia. Uma barata daquelas enormes, gordas. Deu um grito, mostrou a danada indo em direção do fogão cheio de panelas e aí o senhor imagina o que aconteceu.

O relato do Zé pode ter sido sucinto, mas foi bastante explicativo. Não adiantou dona Marta, a síndica, jurar que o salão é limpo toda semana. 

Dona Marta bem que tentou, mas o Oliveira e a dona Maria, assim disse o Zé, ficaram fulos da vida e prometeram processar o condomínio.

- O pior, seu Carlos, é que se eles ganharem o processo, vai sobrar para todos os moradores, para quem tem medo de barata e para quem não tem - filosofou com toda a razão o Zé.

É, o bicho é feio mesmo. Mas fiquei imaginando se em vez dele tivesse aparecido na festa da Celinha um dos ratos que vejo de vez em quando na rua, bem em frente do prédio depois de estacionar meu Uno de volta do trabalho.

Aí, seria até covardia.