O JARDINEIRO FELIZ


Vi outro dia uma cena que me comoveu.

Nosso condomínio é pobre, sua receita mal dá para pagar os funcionários. E quando, numa das raras assembleias, alguém fala que é preciso aumentar a arrecadação para dar uma caprichada no prédio, é um deus nos acuda.

Então, fica essa miséria mesmo - e vamos levando a vida.

Mas estou divagando.

O que eu queria era mesmo registrar o meu espanto quando deparei com o seu João, aposentado, ex-síndico, meu vizinho, todo sujo de terra, plantando não sei que flores no nosso parco jardim.

- Ué, seu João - disse eu -, não sabia que o senhor entendia de jardinagem.

- Entender eu não entendo, seu Carlos - respondeu. Mas alguém precisa cuidar dessas plantas, já que não temos dinheiro para pagar um jardineiro. E assim, eu vou tentando, aprendendo com os erros e quem sabe, um dia, vamos ter um jardim bem bonito.

Me despedi do seu João. Antes de entrar no Uno que me conduz diariamente ao meu detestado emprego, olhei para o prédio.

Não é que o jardim já está bonito?

O seu João pode não ser um excelente jardineiro, mas é um cidadão de mão cheia.

E enquanto esperava o semáforo da esquina ficar verde calculei quantas vezes eu fiz algo pelo condomínio, pelos vizinhos, pelos amigos, por alguém.

Foram poucas, pouquíssimas vezes.

Acho que devo acrescentar o egoísmo à minha lista de defeitos.