PAPO DE ELEVADOR


Não contei ainda, mas o prédio que leva o nome de Condomínio Feliz Cidade já é entrado nos anos. Desconfio que passou dos 40. Aqui, as coisas funcionam mais ou menos, são temperamentais, às vezes empacam e não querem sair do lugar.

Como os elevadores.

Ontem foi a vez do social quebrar. Comigo dentro. Por sorte, não estava sozinho. Minha companheira de viagem era a filha da dona Lúcia, do 53, a Izildinha, que tem, calculo, 15 anos.

Nos 20 minutos que ficamos juntos enquanto o Zé não veio nos resgatar, pude conhecer um pouco dela.

Conversamos - algo raro entre os moradores deste prédio - e, por incrível que pareça, vi que a Izildinha não é uma adolescente comum - como a minha filha, por exemplo.

Conheci uma pessoa preocupada com a família, com o futuro do país - e com a sua própria vida.

Só não entendi quando ela me disse que gostava de morar aqui e que lamentava o estado de conservação do condomínio. 

Sempre pensei que os jovens sonhassem em ir embora de suas casas o mais cedo possível.

Antes de nos despedimos, a Izildinha me falou que iria escrever "poucas e boas" no livro de sugestões que fica mofando na portaria.

Queria ter a coragem da Izildinha. Mas infelizmente não sou jovem como ela. 

O tempo nos dá sabedoria e nos tira a coragem.