A VOZ DO POVO



Deu pane no Uno. Liguei para a oficina do seu João e depois avisei que ia atrasar no trabalho. Enquanto esperava que alguém chegasse para ver por que o carro não pegava, fiquei sentado perto da portaria. Valeu a pena. Vi e ouvi coisas do arco da velha.

Aquela senhora do 71, por exemplo, não sabia, tem a língua solta:

- Zé - disse ela ao meu amigo porteiro - preciso que você ligue para a dona Marta (a síndica do condomínio) e diga a ela para avisar aquelazinha do 72 que aqui não é puteiro. Não aguento mais tanta sem-vergonhice. É um entra e sai de homem...

E depois foi a vez do tenente Júlio, do 54. Parecia ansioso:

- Não chegou nada ainda? - perguntou ao Zé três vezes em cinco minutos.

Não deu nenhuma dica do que esperava - e nem o Zé perguntou.

A menina do 32 foi mais direta:

- Zé, se aquele vagabundo do César me procurar, diga que morri.

O mais grave foi a conversa da Matilde, do 25, com a Izilda, do 62:

- É isso mesmo que eu ouv, a garota está grávida e o namorado não quer casar.

A garota, pelo que entendi, é a filha da dona Nair, do 33. Tem 16, 17 anos, estudante ainda. O pai trabalha na Prefeitura

Demorou uns 40 minutos para o rapaz da oficina do seu João aparecer. Viu logo que o problema era a bateria, velha, esgotada. Ligou para o chefe, trocou a dita cuja por uma nova, perdi uns 300 mangos e a vida continuou.

Gostei da experiência. Vou começar a tomar sol pelo menos 30 minutos por dia todas as manhãs ali ao lado da portaria.

Se não me bronzear, pelo menos vou ficar mais bem informado.