UMA BOA AÇÃO



Tive de mentir novamente para a dona Marta. Inventei um tal martelo que prega silenciosamente para justificar que não poderia ter sido eu o sujeito que estragou o silêncio domingueiro deste feliz condomínio. Dessa forma consertei a mentira anterior - e a minha tola desculpa para algo que não fiz e que me arrependo de não ter feito.

Sim, porque, querem saber, fiquei com uma raiva danada de tudo isso: da dona Marta, que achou que eu seria capaz de, em pleno domingo, martelar pregos no apartamento, do vizinho - sei lá qual - que não compreendeu que, às vezes, as pessoas fazem coisas sem maldade, talvez apenas por necessidade, e foi reclamar de um barulho, tenho certeza, nada perturbador, para uma senhora que, ela sim, se perturba diariamente por vários e mais elevados motivos e, finalmente, de mim mesmo, que perdi, deixe ver, dois dias com essa história, justamente quando passo por um momento dos mais difíceis da minha vida - preciso, repito isso não sei quantas vezes por dia, urgentemente, mudar de emprego.

Feita essa consideração amarga sobre a minha existência - um simples hiato nesta caminhada rumo ao desconhecido - tenho certeza de que, ou estou tendo alucinações, o que julgo improvável dada à minha dolorosa experiência no sem-saborismo do dia a dia, ou me aconteceu hoje, quando entrei no prédio, algo realmente inacreditável: o Zé, aquele porteiro da manhã caladão, meio esquisito, estava me esperando, querendo falar comigo.

E falou. 

Ele que quase nem dá bom dia, que só me cumprimenta por pura obrigação, veio, todo sem jeito, conversar comigo:

- Desculpe, seu Carlos, mas queria ver se o senhor me ajudava. Sei que o senhor trabalha numa firma grande e talvez possa ver se arranja alguma coisa para a Neusa, sabe, minha filha. Ela entrou na faculdade agora e eu acho que seria bom que começasse a trabalhar, para ir aprendendo. Ela é muito inteligente.

Fiquei surpreso. Não conhecia quase nada da vida particular daquele sujeito quieto e seco.

- Não sabia que sua filha já estava na faculdade. Parabéns, Zé.

- É, seu Carlos, ela entrou na USP, nota alta. Sempre foi muito estudiosa, a primeira da classe.

Disse aquelas coisas protocolares ao Zé: "Pode deixar, não garanto nada, vou ver com o pessoal, falo com meu chefe, me arranja um currículo dela..."

Depois foi que me veio uma coisa na cabeça: o Zé devia ter feito um sacrifício enorme para criar a filha - e para vir pedir um favor a um quase desconhecido.

Será que eu faria isso pela minha Norinha? Ou pelo Beto?

Será que o Zé é um pai melhor que eu?

Sei lá. De qualquer forma, não custa nada perguntar para a turma se alguém sabe de algo para a menina.

Vai ser a minha boa ação do dia. 

Ou do mês.

Ou do ano. 

Ou de toda a minha vida, quem sabe?