MEU NOVO AMIGO



Coisa incrível, vi o Zé, o porteiro da manhã, sorrir, ele que nem bom dia dá para as pessoas do prédio.

É que, sem querer, acabei conseguindo um emprego para a sua filha. 

Foi muita sorte. Encontrei com o João, do departamento pessoal, no cafezinho, e, não sei por que, acabei comentando que a filha do porteiro do meu prédio tinha acabado de entrar na faculdade e estava à procura de um trabalho.

Não é que o João se interessou? Me disse que a secretária do dr. Alcides se demitira assim sem mais nem menos e o homem estava desesperado atrás de uma substituta. 

Liguei imediatamente para o Zé, que telefonou para a filha, e já à tarde ela estava na firma preenchendo o papelório.

Conheci a garota, isto é, ela foi me conhecer. É uma moça bonita, simpática. E estava radiante. Fiquei comovido.

Não sabia que esses pequenos gestos podiam nos afetar tanto. Ou já nem me lembrava disso. E não é uma coisa só minha: a reação do Zé prova que até mesmo os homens mais duros, esses que encaram a vida como uma tarefa diária a ser cumprida, têm, lá no fundo, alguma coisa que é só deles, que pode estar esquecida, guardada não se sabe onde, empoeirada, destroçada, mas que nunca desaparece.

O sorriso do Zé quando me encontrou - ele esperou algumas horas depois do seu turno - para me agradecer falou por si só.

Acho que fiz um amigo - justo eu, que tenho tão poucos.