O SILÊNCIO VALE OURO


Recebi a notícia do Zé, porteiro da manhã, logo que ia saindo para trabalhar - deixo meu carro estacionado na rua mesmo e alugo a vaga da garagem, pois assim reforço o orçamento, o Uno ninguém vai querer roubar de tão velho que é:

- Dona Marta quer falar com o senhor.

Antes que perguntem, eu respondo: Dona Marta é a síndica do prédio. Viúva, mandona, mas nunca me incomodou. O que será que ela quer? Olhei para o relógio e vi que dava tempo para uma conversa:

- Liga pra ela, Zé.

O Zé é meio esquisito, calado, mal dá bom dia para os moradores, mas é de confiança. Dizem que tem uma filha doente que cria sozinho - a mulher largou dele já faz uns dez anos. Isso, porém, é outra história.

- Dona Marta, tudo bem? Estou à sua disposição.

E ela me conta que havia recebido uma queixa - não disse de quem - sobre eu ter feito barulho, sei lá, como se estivesse martelando alguma coisa, no domingo - claro que o condomínio não permite isso. Achei estranho. A única coisa diferente que fiz no domingo foi pensar seriamente em arranjar outro emprego. Será que pensei alto demais?

Para não encompridar a conversa, pedi desculpas, falei que estava mesmo pregando um quadro da Norinha na parede (a Norinha é a minha filha, tenho um casal, o menino a gente chama de Beto), quase me convenci da mentira, dona Marta até que foi gentil, me passou um sermão leve e me desejou bom dia.

No caminho para o trabalho lembrei que o tal barulho bem que poderia ter sido obra do Beto - ele é o tipo de garoto capaz de surpreender a gente.

Mas confesso que não escutei nada.

Nem o Beto seria capaz de ferir a modorra de um domingo.

ANTES DE CAIR NO SONO



Só voltei a pensar nessa história do barulho que eu teria feito domingo no dia seguinte antes de dormir. Tive uma segunda-feira comprida e chata - meu trabalho é chato, tão chato que não vou falar para ninguém o que faço. Só digo que não vejo a hora de trocar de emprego - mas o que fazer? Burro velho não aprende...

Mas eu estava dizendo que à noite, na cama, naquela hora em que a gente fica completamente só, a alma parece que se desprendendo do corpo, indo para as lonjuras mais desconhecidas, foi que me deu um estalo: o Beto não podia ter feito o tal barulho, porque passou o dia fora, com o amigo do 21, qual é o nome dele mesmo? E chegou tarde, se me lembro às 10 horas, e logo depois foi dormir.

Então, antes de apagar nesse sono quase sem sonhos que me persegue há uns meses, fiquei com a certeza de que o barulho não veio do meu apartamento.

E isso, em vez de me tranquilizar, me atazanou ainda mais. Se não estivesse tão cansado, garanto que iria demorar a dormir por causa disso.

Dona Marta me acusou de uma coisa que não fiz. Vou ter de tirar isso a limpo. Mas como, se eu mesmo disse a ela, para me livrar de uma discussão espinhosa, que tinha pregado o retrato da Norinha na parede?

E quem foi que reclamou para ela das marteladas?

Dúvidas, interrogações, dilemas.

Quanta responsabilidade tem um homem que só quer viver em paz!

UMA BOA AÇÃO



Tive de mentir novamente para a dona Marta. Inventei um tal martelo que prega silenciosamente para justificar que não poderia ter sido eu o sujeito que estragou o silêncio domingueiro deste feliz condomínio. Dessa forma consertei a mentira anterior - e a minha tola desculpa para algo que não fiz e que me arrependo de não ter feito.

Sim, porque, querem saber, fiquei com uma raiva danada de tudo isso: da dona Marta, que achou que eu seria capaz de, em pleno domingo, martelar pregos no apartamento, do vizinho - sei lá qual - que não compreendeu que, às vezes, as pessoas fazem coisas sem maldade, talvez apenas por necessidade, e foi reclamar de um barulho, tenho certeza, nada perturbador, para uma senhora que, ela sim, se perturba diariamente por vários e mais elevados motivos e, finalmente, de mim mesmo, que perdi, deixe ver, dois dias com essa história, justamente quando passo por um momento dos mais difíceis da minha vida - preciso, repito isso não sei quantas vezes por dia, urgentemente, mudar de emprego.

Feita essa consideração amarga sobre a minha existência - um simples hiato nesta caminhada rumo ao desconhecido - tenho certeza de que, ou estou tendo alucinações, o que julgo improvável dada à minha dolorosa experiência no sem-saborismo do dia a dia, ou me aconteceu hoje, quando entrei no prédio, algo realmente inacreditável: o Zé, aquele porteiro da manhã caladão, meio esquisito, estava me esperando, querendo falar comigo.

E falou. 

Ele que quase nem dá bom dia, que só me cumprimenta por pura obrigação, veio, todo sem jeito, conversar comigo:

- Desculpe, seu Carlos, mas queria ver se o senhor me ajudava. Sei que o senhor trabalha numa firma grande e talvez possa ver se arranja alguma coisa para a Neusa, sabe, minha filha. Ela entrou na faculdade agora e eu acho que seria bom que começasse a trabalhar, para ir aprendendo. Ela é muito inteligente.

Fiquei surpreso. Não conhecia quase nada da vida particular daquele sujeito quieto e seco.

- Não sabia que sua filha já estava na faculdade. Parabéns, Zé.

- É, seu Carlos, ela entrou na USP, nota alta. Sempre foi muito estudiosa, a primeira da classe.

Disse aquelas coisas protocolares ao Zé: "Pode deixar, não garanto nada, vou ver com o pessoal, falo com meu chefe, me arranja um currículo dela..."

Depois foi que me veio uma coisa na cabeça: o Zé devia ter feito um sacrifício enorme para criar a filha - e para vir pedir um favor a um quase desconhecido.

Será que eu faria isso pela minha Norinha? Ou pelo Beto?

Será que o Zé é um pai melhor que eu?

Sei lá. De qualquer forma, não custa nada perguntar para a turma se alguém sabe de algo para a menina.

Vai ser a minha boa ação do dia. 

Ou do mês.

Ou do ano. 

Ou de toda a minha vida, quem sabe?

MEU NOVO AMIGO



Coisa incrível, vi o Zé, o porteiro da manhã, sorrir, ele que nem bom dia dá para as pessoas do prédio.

É que, sem querer, acabei conseguindo um emprego para a sua filha. 

Foi muita sorte. Encontrei com o João, do departamento pessoal, no cafezinho, e, não sei por que, acabei comentando que a filha do porteiro do meu prédio tinha acabado de entrar na faculdade e estava à procura de um trabalho.

Não é que o João se interessou? Me disse que a secretária do dr. Alcides se demitira assim sem mais nem menos e o homem estava desesperado atrás de uma substituta. 

Liguei imediatamente para o Zé, que telefonou para a filha, e já à tarde ela estava na firma preenchendo o papelório.

Conheci a garota, isto é, ela foi me conhecer. É uma moça bonita, simpática. E estava radiante. Fiquei comovido.

Não sabia que esses pequenos gestos podiam nos afetar tanto. Ou já nem me lembrava disso. E não é uma coisa só minha: a reação do Zé prova que até mesmo os homens mais duros, esses que encaram a vida como uma tarefa diária a ser cumprida, têm, lá no fundo, alguma coisa que é só deles, que pode estar esquecida, guardada não se sabe onde, empoeirada, destroçada, mas que nunca desaparece.

O sorriso do Zé quando me encontrou - ele esperou algumas horas depois do seu turno - para me agradecer falou por si só.

Acho que fiz um amigo - justo eu, que tenho tão poucos.

ERA UMA VEZ UM GOL PRATA


E não é que o Zé, o porteiro ranzinza que ficou meu amigo depois que, por pura sorte, arranjei, entre aspas, um emprego para a sua filha na firma onde trabalho, já retribuiu o favor?

Ele me deu uma dica importante:

- Seu Carlos, tem um pessoal estranho rondando o quarteirão. É bom o senhor tomar cuidado: seu carro não é novo, mas não é bom dar bobeira.

O carro a que ele gentilmente se referiu é um Uno já bem rodado, que deixo na rua para poder alugar a garagem e garantir um dinheirinho extra para a feira. Não tenho seguro porque, além de caro, sempre achei que ladrão nenhum iria se entusiasmar pela minha condução - automóvel, definitivamente, aquilo não é.

Mas fiquei atento à dica do Zé. Comprei uma supertrava - a propaganda jura que com ela ninguém pode - e bati um papo com o Barbosa, o porteiro que atravessa a madrugada:

- É bom você ficar acordado, telefone na mão, bem esperto.

Minha rua é tranquila, mas nunca se sabe. Ou melhor, o Zé sabia: não é que duas noites depois de seu aviso um alarme disparou, acordou meio mundo e batata! - levaram o Gol prata lindo lindo do filho do seu Antenor do 43.

A polícia passou pelo prédio, não fez absolutamente nada, só assustou a vizinhança.

Hoje em dia esse pessoal que tem dinheiro para pagar seguro dorme sossegado.

Dinheiro é bom, compra segurança, entre outras coisas.

Como tenho só o suficiente para ir levando, me contento com esse Uno que nem ladrão pé de chinelo quer.

Ainda bem, sem ele estaria perdido. Para garantir vou arranjar mais uma trava - e, quem sabe, mandar instalar um desses alarmes estridentes.

E rezar para que ele não toque nunca.

PAPO DE ELEVADOR


Não contei ainda, mas o prédio que leva o nome de Condomínio Feliz Cidade já é entrado nos anos. Desconfio que passou dos 40. Aqui, as coisas funcionam mais ou menos, são temperamentais, às vezes empacam e não querem sair do lugar.

Como os elevadores.

Ontem foi a vez do social quebrar. Comigo dentro. Por sorte, não estava sozinho. Minha companheira de viagem era a filha da dona Lúcia, do 53, a Izildinha, que tem, calculo, 15 anos.

Nos 20 minutos que ficamos juntos enquanto o Zé não veio nos resgatar, pude conhecer um pouco dela.

Conversamos - algo raro entre os moradores deste prédio - e, por incrível que pareça, vi que a Izildinha não é uma adolescente comum - como a minha filha, por exemplo.

Conheci uma pessoa preocupada com a família, com o futuro do país - e com a sua própria vida.

Só não entendi quando ela me disse que gostava de morar aqui e que lamentava o estado de conservação do condomínio. 

Sempre pensei que os jovens sonhassem em ir embora de suas casas o mais cedo possível.

Antes de nos despedimos, a Izildinha me falou que iria escrever "poucas e boas" no livro de sugestões que fica mofando na portaria.

Queria ter a coragem da Izildinha. Mas infelizmente não sou jovem como ela. 

O tempo nos dá sabedoria e nos tira a coragem.

A VOZ DO POVO



Deu pane no Uno. Liguei para a oficina do seu João e depois avisei que ia atrasar no trabalho. Enquanto esperava que alguém chegasse para ver por que o carro não pegava, fiquei sentado perto da portaria. Valeu a pena. Vi e ouvi coisas do arco da velha.

Aquela senhora do 71, por exemplo, não sabia, tem a língua solta:

- Zé - disse ela ao meu amigo porteiro - preciso que você ligue para a dona Marta (a síndica do condomínio) e diga a ela para avisar aquelazinha do 72 que aqui não é puteiro. Não aguento mais tanta sem-vergonhice. É um entra e sai de homem...

E depois foi a vez do tenente Júlio, do 54. Parecia ansioso:

- Não chegou nada ainda? - perguntou ao Zé três vezes em cinco minutos.

Não deu nenhuma dica do que esperava - e nem o Zé perguntou.

A menina do 32 foi mais direta:

- Zé, se aquele vagabundo do César me procurar, diga que morri.

O mais grave foi a conversa da Matilde, do 25, com a Izilda, do 62:

- É isso mesmo que eu ouv, a garota está grávida e o namorado não quer casar.

A garota, pelo que entendi, é a filha da dona Nair, do 33. Tem 16, 17 anos, estudante ainda. O pai trabalha na Prefeitura

Demorou uns 40 minutos para o rapaz da oficina do seu João aparecer. Viu logo que o problema era a bateria, velha, esgotada. Ligou para o chefe, trocou a dita cuja por uma nova, perdi uns 300 mangos e a vida continuou.

Gostei da experiência. Vou começar a tomar sol pelo menos 30 minutos por dia todas as manhãs ali ao lado da portaria.

Se não me bronzear, pelo menos vou ficar mais bem informado.

O JARDINEIRO FELIZ


Vi outro dia uma cena que me comoveu.

Nosso condomínio é pobre, sua receita mal dá para pagar os funcionários. E quando, numa das raras assembleias, alguém fala que é preciso aumentar a arrecadação para dar uma caprichada no prédio, é um deus nos acuda.

Então, fica essa miséria mesmo - e vamos levando a vida.

Mas estou divagando.

O que eu queria era mesmo registrar o meu espanto quando deparei com o seu João, aposentado, ex-síndico, meu vizinho, todo sujo de terra, plantando não sei que flores no nosso parco jardim.

- Ué, seu João - disse eu -, não sabia que o senhor entendia de jardinagem.

- Entender eu não entendo, seu Carlos - respondeu. Mas alguém precisa cuidar dessas plantas, já que não temos dinheiro para pagar um jardineiro. E assim, eu vou tentando, aprendendo com os erros e quem sabe, um dia, vamos ter um jardim bem bonito.

Me despedi do seu João. Antes de entrar no Uno que me conduz diariamente ao meu detestado emprego, olhei para o prédio.

Não é que o jardim já está bonito?

O seu João pode não ser um excelente jardineiro, mas é um cidadão de mão cheia.

E enquanto esperava o semáforo da esquina ficar verde calculei quantas vezes eu fiz algo pelo condomínio, pelos vizinhos, pelos amigos, por alguém.

Foram poucas, pouquíssimas vezes.

Acho que devo acrescentar o egoísmo à minha lista de defeitos.

INTRUSO NA FESTA



O Zé, o porteiro que virou meu amigo, tem um jeito peculiar de expressar sua amizade. 

Ele é seco, sintético, não é de falar muito - vai logo ao ponto:

- O senhor viu só a confusão que deu no aniversário da menina do 43, a Celinha? Foi um vexame só...

E contou a história.

A festa foi no salão do prédio. Ele é como o condomínio: um pouco decadente. Mas quebra um galho.

Pois bem, seu Oliveira convidou os parentes e alguns amigos para comemorar os 12 anos da Celinha. Em vez de almoço, fizeram um jantar, vá lá saber por quê. Dona Maria, a mulher do Oliveira, caprichou, a parentada veio em peso, as mesinhas de plástico receberam toalha de pano e flores de plástico. Tudo nos trinques. Até que...

- Foi a irmã da dona Maria que viu o bicho subindo na parede, ao lado da pia. Uma barata daquelas enormes, gordas. Deu um grito, mostrou a danada indo em direção do fogão cheio de panelas e aí o senhor imagina o que aconteceu.

O relato do Zé pode ter sido sucinto, mas foi bastante explicativo. Não adiantou dona Marta, a síndica, jurar que o salão é limpo toda semana. 

Dona Marta bem que tentou, mas o Oliveira e a dona Maria, assim disse o Zé, ficaram fulos da vida e prometeram processar o condomínio.

- O pior, seu Carlos, é que se eles ganharem o processo, vai sobrar para todos os moradores, para quem tem medo de barata e para quem não tem - filosofou com toda a razão o Zé.

É, o bicho é feio mesmo. Mas fiquei imaginando se em vez dele tivesse aparecido na festa da Celinha um dos ratos que vejo de vez em quando na rua, bem em frente do prédio depois de estacionar meu Uno de volta do trabalho.

Aí, seria até covardia.

MEU VIZINHO DA FRENTE


Meu vizinho da frente é um sujeito esquisito. Cruzo com ele poucas vezes, a maioria no elevador, quando vou para o trabalho ou ao chegar em casa, moído internamente. Mal me cumprimenta.

Também vejo pouco a sua mulher. É uma criatura tímida, que como o marido prefere viver em seu canto, despercebida, quase alheia à vida em seu redor.

O casal tem um filho pequeno, que, como os pais, é um animal caseiro.

Lembrei-me deles porque o Zé, meu amigo porteiro, me contou que eles iam se mudar:

- Parece que o seu Oscar (esse é o nome do meu vizinho esquivo) vai morar em outra cidade. Ganhou uma promoção na sua empresa, virou diretor ou algo parecido.

Não sei como o Zé, que também não é de falar muito, fica sabendo dessas histórias.

Mistérios do condomínio.

Outra coisa que não entendo é como um sujeito como esse meu vizinho, que parece ser o mais comum dos homens, pode se destacar em alguma coisa.

Mistérios da vida.

Fico imaginando quem vem em seu lugar, como serão essas pessoas as quais terei de, pelo menos, cumprimentar, dar bom dia, ser educado.

Não vou achar ruim se forem discretas como essa família que está de partida.

Mas, no fundo, preferia ter amigos a simples vizinhos.

A LIÇÃO DE CASA DA NORINHA



Minha filha, a Norinha, me pediu, outro dia, que eu lesse um trabalho que a professora de português passou para a classe. Era uma redação de tema livre. Achei interessante: daria para analisar não só a gramática e essas coisas todas, mas a própria criatividade e, até mesmo, as aspirações dos alunos, uma turma de adolescentes que sabe-se-lá o que pensam.

Mas assim que a Norinha me entregou o caderno com o que havia escrito, fiquei sem saber o que fazer: afinal, o que eu entendo de literatura ou de português ou de qualquer disciplina que estudei há tantos e tantos anos?

Mas não tive coragem de dizer isso a ela. Por mais estúpido que eu seja, pelo menos sei que devo mostrar à minha família um mínimo de preparo para uma série de coisas - entre as quais uma trivial lição de casa.

Pois bem, peguei o caderno, fiz uma cara séria e disse à Norinha que iria ler com a máxima atenção a sua redação. E foi o que fiz. Ou, pelo menos, tentei. O fato é que quanto mais eu lia, mais em dúvida eu ficava.

Tive uma ideia que me pareceu luminosa. Lembrei do professor Dirceu, que mora três andares acima, um aposentado simpático que deu, durante muitos anos, aulas de português na escola pública.

Deixei de lado a minha timidez e assim que a Norinha saiu de casa, subi até o apartamento do professor e pedi que ele me ajudasse.

E como ele me ajudou! Fiquei sabendo, por exemplo, que os adolescentes de hoje não são muito diferentes do jovem que eu fui. Talvez se expressem de outra maneira, mas, no fundo, têm o mesmo desejo que eu e milhões de outras pessoas de encontrar a felicidade.

De um modo geral, o professor Dirceu aprovou a redação da Norinha. Mas, educadamente, ele observou que "êxito" tem um significado completamente diferente de "hesito".

Tudo bem, vivendo e aprendendo

O ENTREGADOR DE PIZZA



É um rapaz magro, pardo, de fala engraçada. Diz boa tarde quando é noite, erra o troco e várias vezes me entregou a pizza que não pedi. Quando vai embora se atrapalha com aquela mochila enorme que leva. E a moto parece que vai voar.

O porteiro da noite, outro rapaz magro, me contou a sua história:

- Conheço ele do meu bairro. Aprontou muito quando era de menor. O pai largou a mãe, ele vivia na rua com um bando de vagabundos. Um dia foi atropelado, quebrou um monte de osso. Parecia outra pessoa depois que voltou a andar. Começou a trabalhar, primeiro no posto de gasolina, mais tarde no supermercado, fazendo entrega de bicicleta. Já faz uns três anos que comprou a moto. Está noivo. Me convidou para o casamento, no fim do mês.

Gostei da história, mas vi que a pizza já estava esfriando. Na hora de cortar o primeiro pedaço foi que reparei na calabresa - eu tinha pedido uma de marguerita.

E o pior é que dei para ele uma caixinha de R$ 4!

BANHO DE GATO



A água acabou bem no meio do banho. E estava um frio danado. E eu cheio de sabão.

Ainda gelado, peguei o interfone e liguei para a portaria. O Zé me disse que nem sabia que a água havia terminado.

Na saída para o trabalho, parei para conversar com ele.

- Problema na bomba. Estava quebrada desde ontem, pelo menos. A água não subiu e a da caixa acabou. Já chamei o eletricista para ver se conserta ainda hoje.

Tem hora que dá vontade uma danada de morar numa casa.

Enquanto isso não acontece, por via das dúvidas vou comprar uns garrafões de água mineral.

Estou achando que amanhã terei de tomar um banho de gato...

O AVISO NO ELEVADOR



Vi o aviso no elevador quando voltei do trabalho.

Estava assinado pela dona Marta, a síndica do prédio. Dizia mais ou menos isso:

"Cigarro no elevador.

Tendo em vista as constantes reclamações de alguns condôminos de que frequentemente os elevadores estão com cheiro de fumaça de cigarro lembro aos srs. moradores que é proibido fumar nas dependências do condomínio, de acordo com recente lei estadual já em vigor. Espero contar com a colaboração de todos e assim evitar consequências mais graves".

Marta ....

Síndica

Condomínio Feliz Cidade"

Pois é. Não sei o que me desgostou mais: o fato de existir essa lei idiota que determina o que devo fazer em minha casa, o fato de existir gente tão mal educada que fuma em elevador, ou o fato de ter de conviver com pessoas que, sob o pretexto de cumprir regulamentos estúpidos, alcaguetam seus vizinhos.

Só sei que a comida do jantar desceu com um gosto amargo...

A CONTA DE LUZ



Olhei sem querer a conta de luz do vizinho: deixada por engano à minha porta, abri o envelope pensando que era a minha.

O pior é que vi que ele gasta a metade que eu.

É uma mágica. Não sei como consegue. Ele também tem dois filhos, menores que os meus, mas mesmo assim...

Preciso saber com minha mulher o que está acontecendo. É ela quem cuida dessas coisas lá em casa.

Não demoro mais que 15 minutos no banho.

Não deixo lâmpadas acesas.

Nem tenho tempo de assistir à televisão.

Por onde a eletricidade estará passeando em meu apartamento?

Dependendo do que conseguir apurar nessa investigação, terei de tomar providências enérgicas.

Como, por exemplo, bisbilhotar as contas dos outros vizinhos.

Brincadeira.

Ou desligar a geladeira e passar a tomar banho frio.


Vamos ver.

PINTURA CAPRICHADA


Dona Marta, a síndica, resolveu que era hora de pintar o interior do prédio. Estava meio acabado mesmo. Dos sete presentes na reunião de condomínio, quatro votaram pela pintura, três foram contra.

Um deles, o doutor Assis, ex-síndico, que faz oposição cerrada à gestão da dona Marta.

Mas ela venceu. O trabalho começou na semana passada. E já estou com pena dos pintores.

O doutor Assis não perdoa. Vê uma manchinha de nada, reclama, faz os rapazes passarem outra mão. Até mesmo quando eles não têm culpa, o homem manda pintar de novo.

Desse jeito, o trabalho não acaba nunca. E o pior é o cheiro da tinta. Está no ar, de manhã, na hora que vou trabalhar; continua à noite, quando chego cansado que só vendo. Até enjoa.

Se bem que acho que o problema maior vai ser quando a dona Marta se encher do doutor Assis.

Aí, não quero nem ver, é capaz de sobrar mancha de sangue nas paredes.

O HOMEM DO CACHORRINHO


Cruzei com ele no elevador várias vezes, em horários diferentes - domingo de manhã, sábado à tarde, alguns dias à noite.

Ele sempre com seu cachorrinho, sei lá que raça, daqueles pequenos, pelo comprido, bem clarinho, quase branco.

Quieto, nunca escutei seu latido.

O dono também é desses tipos que falam pouco. Apenas me cumprimenta, educado, e quando chega no seu andar ele abre a porta do elevador e sai carregando o cãozinho. 

Antes, se despede com um "até logo". E mais nada.

Perguntei para o Zé, meu amigo porteiro, como se chama o homem do cachorrinho:

- É Pedro, o sobrenome é esquisito, deve ser estrangeiro. Mora sozinho, mudou-se faz uns três meses. Dizem que é advogado.

Mas o Zé não soube me dizer o nome do animal.

Da próxima vez que encontrar com o Pedro vou perguntar para ele.

Pode ser uma boa maneira de quebrar o gelo.

UM DIA DAQUELES




Um cano de esgoto estourou na garagem, logo de manhã.

Fez uma sujeira e tanto. Ficamos sem água por várias horas. Consertaram - ou acharam que sim -, quebrou de novo: foi um sábado muito tenso no prédio.

Por fim, já quase noite, o interfone tocou e o porteiro avisou que a gente já podia usar as torneiras, dar descarga nas privadas, voltar a viver normalmente.

A garagem - eu desci para ver - ainda lembrava as horas do caos - estava toda molhada, cheia de pedaços do encanamento estragado pelo chão.

Mesmo assim, respirei aliviado. Já pensava como faria se passássemos mais um dia sem água.

Fiquei imaginando como era a vida antes, sem essas comodidades - água encanada, eletricidade, televisão, internet, gás na cozinha -, essas coisas modernas que nos dão tanto trabalho.

O ESTRAGO DA CHUVA



Choveu demais esses dias. Choveu quase uma semana sem parar.

Chego no apartamento e minha mulher me leva ao nosso quarto. A parede da janela está toda estufada.  

Acordo cedo no dia seguinte, a chuva passou, ponho a cabeça para fora, examino a fachada do prédio e vejo uma enorme e feia cicatriz, bem em cima da janela, a causa do desastre.

Interfono para a dona Marta, a síndica, minha única esperança.

Minutos depois, conto as novas para a minha mulher: o condomínio está sem dinheiro, dona Marta acha que dificilmente vai conseguir consertar a rachadura logo, pede que tenhamos paciência que ela vai dar um jeito assim que puder.

Eu sei qual é o jeito: rezar para que a chuva termine, a seca chegue logo e nunca mais chova.

Vou comprar tinta para pintar nosso quarto. Uma cor bem escura. O bege claro que escolhemos com tanto cuidado três anos atrás ficou todo manchado pela água que escorreu na parede.

Em certos lugares, parece um quadro modernista.

Afe!

O CAMINHÃO DA MUDANÇA



Pois é.

Aconteceu.

Vamos nos mudar.

Recebi uma proposta de emprego que não dá para recusar de uma empresa lá no interior.

O salário não é muito maior, mas sei que a vida fora da capital é mais barata.

O fato é que eu precisava mudar.

Não estava aguentando essa vida, essa correria, essa confusão de ter de todo dia enfrentar um trânsito infernal, maluco, cheio de gente mal educada.

Chegava no serviço já estressado, de mau humor, continuava assim o dia inteiro.

E quando entrava em casa me sentia um trapo, o corpo moído, a cabeça tonta.

Falei com a família.

Não foi fácil, mas enfim.

Acho que vai ser bom para todos.

Fechar a porta da sala pela última vez é que vai doer.

Sei lá, às vezes sou emotivo.

Dá uma certa tristeza saber que estamos deixando um lugar onde vi o Beto e a Norinha crescer, onde passei noites e dias encafifado com as minhas preocupações e as minhas esperanças.

Onde passei um bom pedaço da minha vida.

Onde conheci pessoas simpáticas e antipáticas, boas e más, gente como o Zé, o porteiro calado que se tornou meu amigo, e até a dona Marta, a síndica, chata muitas vezes, mas sempre pensando em fazer o melhor para todos.

É, talvez eu sinta saudade desse prédio.

Temos de ir embora logo, o emprego não espera. 

E eu nem arranjei ainda uma casa, um apartamento, um lugar qualquer para ficarmos.

Mas enfim...

Pois é, acho que essa pieguice toda vai durar até a hora em que o caminhão da mudança chegar.

Fim